quarta-feira, 14 de julho de 2010

Conto do poeta

A madrugada sorria lá fora. Jovens divertiam-se, banhados pela lua cheia. Farras e festas se organizavam, porres homéricos eram postos para dentro de seus corpos, álcool corria em suas veias. O ar tinha cheiro de felicidade, de algazarra. Ninguém conseguiria se sentir só naquela noite! Ninguém a não ser o famoso poeta.
De sua janela, no sexto andar de um bonito edifício, lá estava ele, observando a juventude nas ruas com um copo de seu envelhecido whisky na mão. A cidade ria com gosto, contente com a movimentação. Mas nosso poeta refletia quieto, só, a não ser pela companhia de seu gordo gato siamês que se encontrava sentado na confortável poltrona vermelha, perto do rádio. A melodia de Simon e Garfunkel inundava a sala de estar. O poeta refletia.
Imerso em seus pensamentos, lembrava das tantas amantes que teve, das comemorações em que foi. Do sucesso que fez e ainda fazia com suas belas palavras, escritas de forma tão contundente, tão sugestiva. Sentiu falta de ser moço. Sentiu falta do tempo em que a vida lhe proporcionava experiências maravilhosas. Sentiu falta das atrizes, sociólogas, bailarinas e professoras com quem saiu. Nenhuma jamais foi capaz de conquistar o seu coração. O poeta está só.
Assistindo aos jovens lá embaixo, sente-se velho. Percebe que a poesia não se encontra mais em sua vida. Chora copiosamente por alguns minutos, o gato pula do aconchego em que se encontrava para tentar consolar seu mestre. A tentativa passa desapercebida.
O poeta encaminha-se para a sua mesa, aquela que em toda a sua vida, fez de seus devaneios realidade. O poeta escreve, não fica satisfeito. Amassa o papel e o atira longe. Recomeça o texto.
Algumas horas depois, sente que o texto está agradável a seus olhos. Então levanta e se dirige novamente para a janela. Sobe no parapeito e sente os primeiros raios de sol da manhã lhe tocarem o rosto com carinho. Olha para trás, pisca para o gato com respeito e então se atira para o asfalto. Morre com um sorriso no rosto.
A perícia chega, examina seu corpo. Dentro do bolso de sua camisa, tiram um papel. Uma poesia bela, soberana, uma obra-prima com o título de:
"Incompreensível Vida".

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