sexta-feira, 16 de julho de 2010

Fazer o bem sem olhar a quem

Fim de uma bela tarde no Rio de Janeiro. Em Ipanema, o sol olhava para a Cidade Maravilhosa pela última vez naquele sábado. O cheiro da maresia estava forte. Crianças brincavam de se enterrarem nas areias da praia. Jovens chegavam para o que parecia ser um luau, com violões e sorrisos nos rostos. Era mais um dia como outro qualquer.
No calçadão, encontrava-se nosso protagonista. José Augusto era seu nome. Mais conhecido na praça como Zé. No auge da sua sétima década de vida, Zé transpirava juventude. Muitos diziam que ele havia encontrado a fórmula para permanecer moço para sempre! Era de um sorriso acolhedor e sua simpatia era fácilmente notada por qualquer um que o conhecesse. Amigo de todos na vizinhança, Zé era figura carimbada nos barzinhos (onde animava a todos com seu pandeiro. Ritmo e melodia invejáveis tinha Zé) ou rodas de xadrez nas praças. O choppinho no fim de semana era vital para o jovem senhor. Zé cultivava uma barriga estufada e um bigode mal cuidado.
Como dito antes, Zé encontrava-se no calçadão da Praia de Ipanema. Estava seguindo as recomendações do médico de praticar algum tipo de exercício físico. Caminhava na orla três vezes por semana. Não gostava disso, preferiria ficar sentado observando as belas mulatas passarem de uma extremidade à outra da praia.
Após meia hora de caminhada, Zé resolveu por se sentar em um quiosque para tomar água-de-côco. Por coincidência, acabou se encontrando com alguns amigos que não via há tempos. Papo vai, papo vem, a lua foi subindo no céu estrelado. Às 21:00 horas, Zé despediu-se de todos e partiu para sua casa.
No caminho de volta a sua residência, na Visconde de Pirajá, um incidente ocorreu.
Zé caminhava tranquilamente quando foi abordado por um rapaz de aproximadamente dezesseis anos. O menino retirou uma navalha do bolso e ameaçou cortar a carne do nosso querido senhor sem dó nem piedade, a não ser que o "velho", modo como o assaltante o chamou, cooperasse.
Zé olhou com pena para os olhos do seu algoz, um menino com buço por fazer, cara de mau e que parecia nervoso.
"Meu filho." - disse Zé - "Por que quer cometer essa maldade? Não lhe fiz nada!"
"Ah, coroa, preciso da grana! Vai passando!" - retrucou o jovem.
"Mas meu querido, se precisa de dinheiro, por que não trabalha? Não se envolva nessa nefasta vida criminosa!"
"Olha, vovô, se eu quisesse ouvir sermão, eu ia pra igreja! E não sei nem o que nefasta quer dizer!" - ironizou o assaltante
"Jovem, a vida é feita de escolhas. Escute o meu conselho. O caminho mais fácil para obter as coisas, nem sempre é o certo. Você não vai querer se arrepender de nada no futuro, não é?"
O criminoso hesitou em responder.
"Conte-me, para que deseja ter o meu suado dinheirinho de aposentado?" - Perguntou Zé, com uma voz doce.
A expressão do menino mudou. O semblante mal encarado deu lugar a uma cara triste, de choro.
"Preciso conseguir um remédio pra minha mãe, doutor." - disse o jovem.
"Entendo sua posição." - disse Zé com a voz embargada - "Mas acho que a forma pela qual você está tentando obter o dinheiro para o medicamento é errada, não concorda, meu bom jovem?"
"Sim senhor!" - respondeu o jovem, imediatamente.- "Eu sei que é errado, mas eu preciso senhor, minha mãe precisa." Lágrimas escorriam por seu rosto.
"Então me acompanhe até a farmácia, menino" - disse Zé, comovido. Te darei o remédio que precisa.
Ao chegarem na farmácia, Zé comprou o remédio para a mãe do menino. Pediu um papel e uma caneta ao homem que se encontrava na bancada. Anotou algumas palavras e entregou o papel ao menino.
"Esteja nesse endereço amanhã!" - disse Zé.
No dia seguinte, toca a campainha.
Era o menino, acompanhado de uma senhora de cabelos grisalhos, presos em um prático coque. Com agradecimento nos olhos, ela diz para Zé:
"Obrigado, meu senhor! Não só pelo medicamento, mas por colocar meu garoto no caminho certo."
Zé preparou um café com biscoitos para todos e sentou-se para conversar com suas visitas. Soube que o nome do jovem rapaz era Gérson e que ele morava em uma pensão com sua mãe, Francisca.
"Olha meu rapaz, tenho uma proposta para você." - disse Zé.
"Pois não, senhor."
"Sou dono de uma marcenaria, se você quiser, poderá começar a trabalhar para mim".
O garoto concordou e sua mãe, visívelmente emocionada, beijou-lhe a testa.
Com o passar do tempo, Zé foi se apegando cada vez mais ao garoto, que provou ser um empregado aplicado. O menino passou a frequentar cada vez mais a casa do simpático senhor e a se tornar o filho que Zé nunca teve.
Alguns anos depois, Zé foi diagnosticado com tuberculose pelos médicos. Gérson ia passar os dias com seu mentor no hospital, oferecer o suporte que o mesmo havia lhe dado há alguns anos atrás.
Quando pressentia que o fim estava próximo, Zé pediu para os médicos um papel e uma caneta, onde escreveu seu testamento. Após escrever, Zé dormiu, para nunca mais acordar.
No testamento, as seguintes palavras foram escritas:

Deixo a Gérson tudo aquilo que me pertence. A marcenaria, meu simpático apartamento em Ipanema, minhas humildes economias e meu fusca. Gostaria de deixar registrado nesse documento, que Gérson, que conheci enquanto tentava me assaltar, há práticamente uma década atrás, me fez acreditar que o mundo e que principalmente as pessoas que nele habitam ainda tem jeito. Agradeço ao menino, agora não mais menino pela oportunidade que ele me deu de fazer o bem sem olhar a quem. Tenho certeza que morro agora como uma pessoa realizada. Deixo a todos o meu carinho. E minhas últimas palavras são: Sempre acredite no bem presente dentro das pessoas.

4 comentários:

  1. muito interessantes os seus contos, mas fiquei curioso e tenho que perguntar. Por que razão todos os seus personagens que estão a morrer resolvem escrever algo nos momentos que antecedem o paletó de madeira?

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  2. Eu acredito que todos levam consigo alguma lição desse mundo. E a melhor maneira que encontrei para que meus personagens extravazassem esse sentimento, foi através da escrita.

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  3. Daniel, gostei! Parabéns!
    O conto apresenta uma lição de vida muito bonita. Bem interessante mesmo!
    Continue assim, cara!
    Abraço.

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  4. Bem melhor do que o conto do poeta, na minha humilde opinião.

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